Revistão - 50 Anos de Bossa Nova
Por: Andréia Regeni e Isabella Lessa
Foi em 1958 quando
o escritor e jornalista Ruy Castro anunciou: "show de Silvia
Telles e uma banda bossa nova". Bossa era uma gíria
da época, que significava "lábia". Estava batizado
então aquele ritmo, que, com sua batida de violão e vocais
sensíveis, deu novas cores ao Brasil.
A bossa nova surgiu
na época certa. Época em que o progresso e a prosperidade
tomavam conta do país. O cenário era um Brasil sob o governo
de Juscelino Kubistchek, pairava no ar uma promessa de grandeza;
surgia Brasília, com a arquitetura moderníssima de Oscar
Niemeyer; a seleção brasileira esbanjava seu talento
único no futebol; as chanchadas eram deixadas de lado, começava
o Cinema Novo, com cineastas como Glauber Rocha; o homem viajou
para o espaço. Tudo parecia estar acontecendo naquele momento.
No entanto, o Brasil
não tinha uma trilha sonora para ilustrar tais mudanças.
Como disse o escritor e produtor musical Nelson Motta, sua geração
não possuía uma música que a representasse. Nas
rádios, os vocais exagerados de Lupicínio Rodrigues e
Dolores Duran lamentavam amores perdidos. Tangos argentinos e boleros
também não tinham nada a ver com os novos tempos.
Tudo, absolutamente
tudo, mudou quando as pessoas ouviram João
Gilberto cantar "Chega de Saudade". Era uma
música completamente nova, em todos os sentidos. Musicalmente,
tinha uma batida diferente, simples, mas sofisticada. A letra falava
sobre coisas boas, ainda que melancolicamente, e chamavam atenção
os diminutivos: "pois há menos peixinhos a nadar no mar/
do que os beijinhos que eu darei na sua boca...".
Bastou quase nada
para que a bossa nova ganhasse o posto de trilha sonora dos brasileiros.
Tom Jobim era o grande arranjador
das melodias, harmonizava duas notas banais e as transformava em algo
belo. Vinicius de Moraes deu poesia
às letras, sensíveis e otimistas, até mesmo quando
tristes, tinham um quê de alegre. E João Gilberto
foi o criador da tão famosa batida de violão, tão
inovadora.
Nara
Leão, Roberto Menescal,
Ronaldo Bôscoli, Newton
Mendonça, Johnny Alf, Astrud
Gilberto, Silvia Telles,
Os Cariocas, Carlos Lyra, João
Donato, Miúcha, Marcos
Valle, Edu Lobo, entre outros, foram algumas figuras
que compuseram este que foi um dos momentos mais ricos e produtivos
da música brasileira.
O período
da bossa nova foi curto, na realidade. Foi de 1958 a 1964. Quando se
deu o golpe da Ditadura Militar, a bossa nova enfraqueceu. Ganhou espaço
a música de protesto, preocupada com o lado social. Até
mesmo artistas como Nara Leão e Vinicius de Moraes já
não queriam saber de bossa.
Caetano Veloso
e Gilberto Gil fizeram a seguinte afirmação: "O
Brasil tem que merecer a bossa. Não é culpa da bossa,
e sim do Brasil. É como se a bossa nova tivesse possibilitado
um vislumbre do que o país poderia ser. É como se precisássemos
de décadas para chegar ao que já está aqui."
Ou seja, para alcançar a beleza, a paz, o amor - tudo isso tão
presente naquelas canções.
Pode soar utópico,
mas é inegável o encanto que a bossa nova causou pelo
mundo. É uma música bonita, de uma qualidade indiscutível,
com raízes no samba e influências do jazz. Estamos tão
acostumados a ouvir falar de "Garota de Ipanema", que acabamos
esquecendo de que a bossa não é um mero acontecimento,
e sim, algo extraordinário para a cultura brasileira. Por isto,
o !ObaOba presta sua homenagem a Bossa Nova neste Revistão:
Introdução
O Legado
Moda
Curiosidades
Exposição