Uma outra cara para o Funk
Por Thiago Braga
Som de "preto e favelado", citando a letra dos MCs Amílcar e Chocolate, o funk carioca mudou de cara e público e tem passe livre nas festas da galera que possui um poder aquisitivo maior. Desde seu primeiro grande estouro, em meados da década de 90, o estilo das periferias já flertava com a elite do Rio de Janeiro.
O funk mudou de cara e até mesmo de atitude. Casas caras, com luxo e requinte estão se adaptando a essa tendência musical. Mas, ao contrário do que a maioria pensa, o estilo não é novidade e já existe desde a década de 70, com suas letras focadas na vida dos morros cariocas.
Sinônimo de casa cheia tanto no Rio quanto em São Paulo, esse estilo musical já não faz mais distinção de cor, classe ou religião. Para tentar entender o segredo do sucesso, falamos com alguns idealizadores de festas e freqüentadores de baladas que se jogam no batidão.
BATIDÃO DE ELITE
As músicas de MC Marcinho e da dupla Willian e Duda dos anos 90 já faziam parte da lembrança de jovens da classe média alta, que freqüentavam os bailes desde cedo, como lembra a estudante Marcela Papi, que hoje tem 23 anos: "Com 14 anos eu ia para os bailes funk na Barra da Tijuca. Tinha o Caça e Pesca, BNDS e o Canaveral que eu freqüentava com minhas amigas. Era tudo de bom", relembra a moradora do bairro da zona sul do Rio.
Depois do "boom" inicial, o funk desapareceu da mídia durante um bom período, mas reapareceu com força total há dois anos. Hoje, o ritmo deixou de lado os ecos dos guetos e ganhou as casas noturnas modernas e mais sofisticadas da cidade fluminense. "O cara mais rico da cidade canta a música do cara que mora na favela. O MC que não canta proibidão entra em qualquer morro do Rio e se apresenta no Hard Rock Café", afirma um dos principais responsáveis pela popularização do funk, DJ Marlboro.
Jovens das classes A e B decoram as letras que falam de um cotidiano distante de sua realidade. "Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci" é um dos versos que sai da boca de patricinhas, que nunca passaram perto da Rocinha. A imensa lista de nomes de comunidades, como era de costume em funks primordiais, é repetida como se fossem endereços nobres e conhecidos por toda a população carioca.
Os batidões do funk (apelido utilizado pelos admiradores desse estilo musical) ultrapassaram as fronteiras e atualmente ecoam pela ponte-aérea, dentro de casas noturnas do Rio e São Paulo. Está fácil de encontrar esse gênero musical como atração principal de uma noite. Baronnetti e Bombar, no Rio, Lov.e e Lótus, em São Paulo, são exemplos de casas que tem noites dedicadas ao funk. Só que para entrar em um desses lugares, os ingressos podem chegar à R$ 50, um valor impensável nos bailes funk do subúrbio do Rio.
"Às vezes eu freqüento estas noites dedicadas ao funk. É mais acessível e confortável que um baile funk tradicional, que não tem ar condicionado", comenta Raphael Resende, de 23 anos, que acredita que desta vez o ritmo veio para ficar. "É uma arte popular que tem o poder de conquistar desde as classes D até a AA".
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