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Violência no Rio
Por Thiago Braga
Madrugada no Rio. A cada esquina parece que algo perigoso vai aparecer. Que as ruas estarão fechadas devido a tiros entre policiais e traficantes em algum morro. Entrar no túnel já dá frio na espinha. E se tiver um assalto? Atravessar a Avenida Niemeyer à noite? Cruzar a Linha Amarela? Passar pela Linha Vermelha? Nem pensar! Quem é que tem coragem de sair na noite carioca com tantos obstáculos? Que pai gosta que o filho saia de noite pela cidade? Como se divertir num Rio de Janeiro monopolizado pela guerrilha urbana?
Cruzar da Zona Sul para a Barra, dois pontos de classe alta da cidade do Rio, não é mais como antigamente. As favelas da Rocinha e do Vidigal, ambas em São Conrado, estão se tornando um complexo. Os tiroteios se tornam cada vez mais freqüentes. Como atravessar de um bairro para o outro sem ter uma ruga de preocupação? O ator e estudante Thiago de Los Reyes, de 16 anos, encarava a viagem sempre que tinha ensaio, muitas vezes de madrugada. Mas nunca sozinho. Seu pai o acompanhava durante todos os ensaios.
"Dependendo do lugar eu deixo mesmo de ir. Eu moro em Botafogo e tinha ensaio na Barra. Meu pai que me levava. A preocupação não é só dos meus pais. É mútua, minha também. Mas se eu for sair pelo bairro onde eu moro, não tem problemas. Saio sozinho numa boa", conta Thiago.
A engenheira Márcia do Valle, de 28 anos, acha que morar no Rio é uma opção. Segundo ela, todo mundo tem consciência que o Rio está perigoso.
"Eu não deixo de fazer nada. Se eu for deixar de fazer as coisas que eu gosto por causa da violência, eu me mudo para uma cidade do interior", brada.
Mas não dá para ignorar o aumento da violência na cidade. O número de assaltos a pedestres, por exemplo, no último mês de julho foi o maior dos últimos 14 anos no estado fluminense. Os casos triplicaram: de 967, em janeiro de 1991, para 3.041, em julho de 2005.
Bianca Arman, jornalista de 25 anos, tem a consciência de que todos estão sujeitos a sofrer algum tipo de crime. A moradora do Recreio acha que a violência está em toda parte.
"Acredito que esta situação já tomou conta do Rio de Janeiro. Não é porque você está no seu bairro, que não vai ser assaltada". diz Bianca. Mas ela garante que prevenir é a melhor coisa para não sair no prejuízo: "Tenho dado preferência a bares e boates do meu bairro e redondezas. Mas se um amigo meu comemora o aniversário num bar no outro lado da cidade, eu não deixo de ir". A vida no Rio de Janeiro agora é assim: ou você se tranca e reza ou você corre risco.
A psicóloga e atriz Paula Jardim, de 23 anos, é do coro que para morar no Rio você tem que correr riscos. Mas vê uma certa normalidade nisso.
"Eu acho o Rio perigoso como qualquer cidade grande. Aqui ninguém pode andar de bobeira na rua. Você tem que estar sempre ligado em tudo. Se der mole, fica com cara de otário. Vai acabar sendo assaltado. Mas eu moro no Rio desde que nasci e nunca deixei de fazer nada por causa da violência", pondera. Paula crê que a prudência é uma das coisas mais importantes para se ter no Rio. "Eu não ando a noite sozinha por aí. Quando estou de carro, até me arrisco, mas de ônibus é impossível. É pedir para ser assaltada. Quando estou sozinha e sem carro de madrugada, sempre me obrigo a pegar um táxi e acabo gastando uma grana. Mas a vida não pode parar", conclui.
Só para ter noção, para cada jovem europeu entre 15 e 24 anos que morre por homicídio, 200 cariocas são vítimas de igual crime. Este levantamento foi feito para o livro "Mapa da Violência 3: os Jovens do Brasil", pelo sociólogo argentino Jacobo Waiselfisz, autor do livro. Segundo ele, está mais perigoso viver no Rio que na Palestina. Agora me diz: como os pais podem deixar o filho ir numa festinha do outro lado da cidade? Como esticar a noite indo para um after na boate mais distante?
"Tento não demonstrar medo quando estou sozinha de noite. Não podemos demonstrar medo. Quando tenho trabalho até de madrugada, eu encaro numa boa. É uma obrigação. Agora, se for para sair, eu não volto para casa sozinha. Prefiro dormir na casa de minhas amigas", confessa a estudante Camila Ferreira de 17 anos, moradora da Piedade. Hoje, a violência se banalizou, funciona como meio de expressão. Isso gera nos cidadãos uma grande obsessão pelo medo. Refletir sobre os seus medos, ajuda a perceber como a violência determina a forma de viver na cidade e, também, acaba ajudando a encontrar meios de escapar dessa loucura. A reflexão do que seria paranóia e o que seria precaução é essencial para enfrentar a situação que o carioca está passando.
"Procuro não deixar de fazer as coisas por causa da violência", conta Julianne, de 22 anos, que é a favor de trabalhar o medo na cabeça das pessoas. "Eu sempre tive uma relação muito boa com a minha família. Não minto em nada. Mas a minha mãe é neurótica com o problema da violência. Ela não sai de carro com a janela aberta. Aí, eu me sinto obrigada a mentir para ela quando vou para lugares que ela considera mais perigosos - fala, mas sempre deixando claro que faz isso quando está de carro.
- Vou sozinha de carro para qualquer lugar. Mas tenho consciência que é perigoso. Mas se eu tivesse que ir de ônibus, com certeza eu não ficaria tranqüila", acredita Julianne.
Acontece que no Rio, o medo está no inconsciente coletivo. Todos os dias saem vários assuntos nos jornais e na TV falando sobre a violência. Isso acaba por mexer na população. O show de Avril Lavigne, que aconteceu no último sábado na Praça da Apoteose, foi adiantado a pedido de pais preocupados com a volta para casa. Os produtores acataram o pedido, colocando o show para as 20 horas. Casos como este são comuns no Rio. As festas estão cada vez mais cedo e para cada vez menos gente.
Para o produtor e estudante de cinema Thiago Chagas, de 21 anos, os cariocas não podem abraçar esta sensação de insegurança. Ele torce, como todo mundo, para que esta onda de medo passe. Ele acredita que não precisa andar no Rio como se tivesse numa guerra. Mas que também não é o Jardim do Éden. "Sempre vou onde quero. Não paro a minha vida por causa da violência. Apenas acho que devemos ser precavidos. Ando sempre depressa, de olho em tudo, em alerta. Realmente, não dá para relaxar totalmente. Mas isso não me impede de curtir a cidade e sua noite maravilhosa".
Sem dúvida é um desperdício deixar de freqüentar pontos lindos da cidade por causa da violência. Vários lugares que seriam ótimas opções para passar a noite hoje em dia não são nem cogitados. O medo e a insegurança não nos deixa sermos livres na cidade onde moramos. O Rio de Janeiro continua lindo, mas esta situação desconfortável depõe contra a cidade. E isso entristece não só o turista que vem visitar a cidade, mas, principalmente, os próprios cariocas, que são obviamente, os maiores fãs da cidade maravilhosa.
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