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Música para dançar - Entrevista Garrafieira
Por Thiago Braga


A Lapa sempre foi de uma efervescência cultural enorme! O berço da boemia carioca, como o local é conhecido, trouxe à tona vários artistas de diversos segmentos e com talento incontestáveis. Uma destas grandes surpresas vindas da Lapa é o grupo Garrafieira, ganhador do prêmio Tim deste ano de Melhor Grupo de MPB.

O prêmio foi de grupo de MPB, mas pense essa MPB da maneira mais universal possível, sem exageros. A banda formada por Gabriel Improta (guitarra, violão), Marcelo Bernardes (sax e flautas), Thiago Queiroz (sax), Alexandre Caldi (flauta), Darcy da Cruz (trompete), Rodrigo Villa (baixo), Cassius Theperson (bateria), Mariana Bernardes (voz) e Aleh (voz) tem influências de diversos ritmos como o samba tradicional, passando pela black music, cubana e até o jazz! Influências vindas de todo mundo, juntas, num caldeirão bem brasileiro.

O álbum, gravado pela Biscoito Fino, comprova os diferentes caminhos que levaram a um trabalho de primeira. O disco reúne jazz, samba, bossa, pagode, música negra, enfim, um pouco de tudo. Os nove componentes, que têm idades bastante distintas, depositaram um pouco de cada vivência musical pessoal para resultar numa fórmula imbatível.

Músicas como "Carolina" (Chico Buarque), "Samba da Minha Terra" (Dorival Caymmi) e "Bananeira" (João Donato) saíram com uma nova roupagem. Esta última aparece numa faixa bônus do CD flertando com a música eletrônica, num remix feito por Marcelinho Dalua e Marcos Cunha. A ousadia eletrônica foi mais um experimento, pois o forte do Garrafieira são os instrumentos.

A receita multi-rítmica deu super certo. Além do prêmio, o grupo está bem requisitado, com diversos shows agendados, principalmente onde nasceram, na Lapa. Foi em 1998, então com o nome de Semente, que o Garrafieira deu seus primeiros passos tocando músicas brasileiras dançantes e chorinhos. Depois de um tempo, quando o grupo deu uma amadurecida, veio a sonorização com a cara mais das gafieiras tradicionais, conceito que eles seguem até hoje.

Gabriel Improta, músico e responsável por muitas das composições do Garrafieira, respondeu algumas perguntas para entendermos melhor o conceito do grupo, saber seus planos e, principalmente, ficar por dentro das idéias de um dos mais promissores grupos surgidos no Rio nos últimos tempos. Confira:

!ObaOba - Como surgiu a idéia de montar a Garrafieira? Como músicos de idades tão distintas foram parar no mesmo grupo?


O Garrafieira surgiu em 1998, na Lapa, Rio de Janeiro, chamado Semente. A idéia era tocar as músicas da tradição da MPB dançante e choros do Pixinguinha e K-ximbinho, mas com arranjos que muitas vezes tinham mais a nossa cara, não eram muito tradicionais. Acabou dando certo. A formação inicial tinha 2 percussões, vozes, teclado, cello (!) fazendo a função dos baixos, 1 sax e 1 guitarra e tinha, entre outros, Rubinho Jacobina, hoje na Orquestra Imperial. Depois, com a evolução do grupo, mudou completamente, ficou uma instrumentação mais próxima a das gafieiras tradicionais. Os mais velhos, músicos do primeiro time da MPB, Marcelo Bernardes e Darcy da Cruz, entraram depois.

!ObaOba - Qual é a importância da Lapa na formação do grupo?
O Garrafieira faz parte de um movimento natural de músicos e público que está em andamento na Lapa. Toca-se muitas vezes música para dançar e choro instrumental, rearranjados. Teresa Cristina, Yamandu Costa, Tira Poeira e outros parecem fazer parte desse movimento que não tem estatuto. Ainda é difícil dizer a importância exata que isso terá no futuro, mas hoje é algo bastante perceptível, inclusive pelo número de pessoas circulam nesse meio.

!ObaOba - Como é o formato do show do Garrafieira? Qual o novo conceito que eles colocam nas antigas gafieiras?
O conceito básico é o mesmo: música, de diversos estilos, para dançar dentro da grande tradição da MPB, e sua abertura para as músicas do mundo, como o Jazz e a música Cubana. Muito samba misturados com esses estilos. Tem também nossas composições originais. O repertório e o jeito de tocar e sentir a música é que mudaram, como não poderia deixar de ser. Estamos em outro tempo, somos músicos diversos daqueles que faziam a gafieira tradicional (e ainda fazem, vide Severino Araújo, domingos no Circo Voador, na Lapa), enfim, temos diferentes ambições.

!ObaOba - Há muitos jovens nos shows do Garrafieira? Como vocês enxergam esta popularidade entre o pessoal mais jovem em relação a grupos como a Orquestra Imperial, que não deixa de ser uma espécie de gafieira modernosa?
Modernosa pode ser pejorativo. Música para dançar é algo tão velho quanto a música - Bach, Haendel e outros compositores do séc. XVII já tinham suítes de dança. O fato dos músicos de hoje que fazem música para dançar se apropriarem de nomes e idéias da MPB só demonstra a força dessa tradição que é naturalmente "modernizada". Provavelmente os jovens sempre vão querer dançar, músicas que estejam em sintonia com seu tempo, que estejam no seu universo. Na década de 70 iam a discotecas, hoje querem música brasileira, às vezes mais tradicional, às vezes mais renovadora, uma vez que tudo muda, as pessoas e a música. Permanece a vontade de dançar e ouvir música

!ObaOba - Como foi receber o prêmio TIM de melhor grupo de MPB? Há uma cobrança maior entre vocês?
O prêmio TIM foi uma surpresa, não esperávamos. Na verdade o sentimento maior é de realização por termos conseguido gravar um CD pela Biscoito Fino, que acabou ocasionando o Prêmio. A cobrança existe mesmo sem prêmio, estamos sempre querendo fazer melhor.

!ObaOba - Como é o processo de escolha do repertório dos shows? Há contradição neste processo devido a quantidade de pessoas e a diferença de idades?
Há conflitos, mas no final tudo se resolve.

!ObaOba - Quem são os compositores do grupo?
Eu (Gabriel Improta) e Darcy da Cruz, basicamente. O Marcelo Bernardes também tem uma música gravada, Serramar.

!ObaOba - Quais são as maiores influências do Garrafieira?
As influências são muitas, porque cada integrante do grupo contribui com as suas. A Mariana (voz) e o Marcelo Bernardes (Sax e flauta) são mais próximos da MPB tradicional do samba e do choro. Já o Aleh (voz) gosta de black music brasileira. O Cássius (bateria) é de Belém e tem influências do Carimbó de lá. Eu (guitarra) e Rodrigo Villa( baixo) somos também muito ligados à música instrumental brasileira e o Jazz, e por aí vai, num grupo com 9 integrantes, todos músicos profissionais, com a cabeça sempre na música, buscando seus caminhos. Então fica aberto o leque de influências, típicos da gafieira, bem antropofágica. Um pé nas big bands de jazz, o outro na MPB, olhando o mundo.

!ObaOba - Como foi o processo de gravação do disco? E a relação com a gravadora Biscoito Fino?
O CD foi gravado para registrar o trabalho, quando eu estava indo pros Estados Unidos, devido a uma bolsa de estudos que recebi. Voltei logo e a Biscoito Fino se interessou e comprou o CD. É sempre bom contar com uma boa gravadora, embora nossa relação se restrinja a este CD.

!ObaOba - Como é a relação de vocês com a música eletrônica? Na faixa bônus do disco há um remix feito por Marcelinho Dalua e Marcos Cunha para a música Bananeira. Vocês pretendem reforçar mais os laços com o eletrônico ou isso foi só uma experiência?
Foi mais uma experiência. Acho que esse tipo de música está dentro do universo da música pra dançar e procuro não ter preconceitos.

!ObaOba - Quais são os planos da Garrafieira para o segundo semestre de 2005?


Viajar para tocar.