A primeira noite da 16ª edição do Sónar remixou os sentidos, misturou o certo e o errado, começando pelo próprio nome do festival. Sónar, mais do que a maior festa eletrônica da Espanha, é o infinitivo do verbo "dar som, tocar", som + ação. Para estrangeiros como eu, formados na pura escuela de español paraguyao, Sonar, com um tio a mais sobre o "n", vira sonho, Soñar.
E foi isso que presenciei ontem, um sonho muito louco. Logo na entrada, um balcão preto iniciava o mistureba ficção e realidade. Na loja que testava drogas, uma cena insólita chocava. O público, sem medo nem dó, tirava do bolso cristais, coca, ketamina e
pastillas infindáveis de ecstasy para saber, antes de tomar, se tudo o que parece, realmente é. O resultado do teste do "sim e não" era instantâneo. Em caso negativo, demorava outra hora para saber o tamanho da mistura, "los cortes", bastante frequentes. Para um brasileiro como eu, nada poderia ser mais surreal. Obviamente, se estivesse em São Paulo, hoje estaria dormindo no Cadeião do Belém.
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Passado - literalmente - o baque inicial, entrei com meu amigo espanhol-tuniquim ao recinto central. De cara, outra pseudo realidade cruzava meus passos. No meio de tudo, enquanto Richie Hawtin tocava "solamente" clássicos do minimal, um brinquedo de carrinho de bate-bate dramatizava. Em menos de dois minutos, tínhamos comprado cinco fichas, atropelamos de tudo, menos a fama de retardados dos estudantes estrangeiros de Barcelona. No meio de tudo, provando que nem tudo o que parece (europeus educados) efetivamente é, andando como quero-quero prenhas, as meninas ousavam atravessar a pista andando. Quase eram machucadas de verdade, sendo resgatadas às pressas pelos segurancas africanos indignados.
As máscaras distribuídas a rodo também entravam na viagem do que nem tudo o que parece realmente é. As pessoas chegavam a parecer idênticas, todas alucinadas igualmente em uma multidão sinônima. Ao baixar a fantasia branca, que misturava o rosto do filme
Pânico com as lágrimas correndo como se fosse o
Fantasma da Ópera, todos pareciam novamente estranhos, um de cada país, cada um com sua (falsa) droga, cada um andando para um lado diferente.
Ao mesmo tempo, a edição de imagens dos telões davam um show à parte. O rosto do francês Agoria parecia mesclado a sua imagem tocando ao vivo, em ambas imagens capturadas
in loco, por apenas uma editora, superconcetrada, que dava conta muito bem do recado. O outro francês Sebastian, que entrou às 4h da manhã, foi filmado fumando cigarros alucinadamente, pegando sua case e saindo em uma nuvem de fumaça - sabe-se lá do que.
Eram três palcos no primeiro dia do Sónar noite. Dentro rolaram as estrelas citadas acima, já no palco outdoor os italianos do The Crookers arrasaram. Foi muito tecno, até de manhã, deixando a multidão enlouquecida, aquecida, sabe-se la do que, afinal, nem tudo o que parece, realmente é no Sónar 2009. No terceiro palco, um pouco mais sem graça, tocaram highliths da BBC radio 1, mas sem tanta empolgação.
Na saída, preciso, como patrício de brasileiros que poderão vir na 17ª edição, terminar com apenas duas orientações. Não deixe para pegar táxis na volta, já que não existem. Ônibus, então, nem pensar. O esquema é marcar com algum motorista conhecido ou, de pronto, saber que suas perninhas podem não aguentar andando a pé até o centro. Lógico, afinal, nem tudo o que parece realmente é.
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*Arthur Guimarães é colaborador especial do !ObaOba no Sonár