Gui Pimentel não se abateu pela crise. Ex-corretor de ações, desde 2008, ele se tornou um DJ em tempo integral depois que o mundo se descabelava com a quebradeiras do sistema financeiro. A oportunidade vislumbrada pelo DJ foi apostar todas suas ações (literalmente) na música eletrônica. "Hoje estou bem, com mais tempo de trabalhar com música, que é meu grande hobby", garante esse paulistano de 37 anos, fã incondicional de César Cielo e Pelé.
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Gui é parceiro musical dos DJs
Buga e
Cristoban e, além de tocar, é sócio de algumas festas. Também já teve sociedade em clubs paulistanos, como a saudosa Chaos e a
Disco. Para ouvir todas essas histórias, o ObaOba se reuniu com o DJ num restaurante movimentado da região da Paulista, em São Paulo. Uma conversa de um cara que gosta de fazer para as pessoas que gostam de ouvir música. "Minha missão agora é levar algo de novo, mostrar o inusitado, para quem gosta de música".
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ObaOba: Quando começou a tocar?
Gui Pimentel: Faz tempo. Na minha adolescência, minha terapia era gravar fitas para as festas dos amigos. Quando tinha quase 20 anos, conheci o Sílvio Calmon (DJ e produtor) e me interessei bastante por ver o trabalho dele. Comecei a ir no estúdio do Sílvio para ver como ele trabalhava, para aprender. Ao mesmo tempo, ia muito para Miami, onde conheci outro DJ, Carlo Sarli, que era um cara bem eclético e tocava um som bem variado, já tinha tocado com a Gloria Stefani. Esses dois caras foram meus tutores. Aí que comecei a comprar equipamento e vinis.
Você tocava algum instrumento?
Não, nunca toquei. Me considero um músico frustrado. Tenho um bom ouvido musical, hoje tenho um bom conhecimento musical, de estrutura, mas nunca fiz aula nem toquei nada. Mas sempre fui muito influenciado por rock clássico, The Police e Queen, especialmente. Também sou fã dos anos 70, de Michael Jackson e de R´n´B. Os sets do
Café Del Mar também escuto bastante.
Quando começou a tocar profissionalmente?
Minha primeira gig profissional foi em 1996. Percebi que dava para viver tocando. Na época, eu tinha uma loja de esportes, então era tranquilo conciliar minha rotina de trabalho com as festas que eu tocava. Eu comecei numa época que os ritmos mais fortes eram house e tecno. Depois veio o drum and bass. Mas meu grande estalo como DJ veio no ano passado, eu era corretor de ações e com a crise da bolsa resolvi largar essa carreira e ficar como DJ e produtor em tempo integral.
Como define seu estilo atualmente?
Sou um DJ de house que flerta com o techno. Mas o estilo acaba sendo uma camisa de força, porque hoje o som é muito eclético, o público é eclético. O eletrônico está dividindo seu público com outros nichos da noite, como o sertanejo, o axé, anos 80 e 90, dentre muitos outros gêneros. Defino meu estilo como DJ de música eletrônica, minha essência no entanto é e sempre será house.
O que você acha dessa fase eclética da noite?
É interessante, porque eu vejo esse movimento muito parecido com o que acontecia no em meados dos anos 90. A diferença é que hoje as pessoas aceitam o eletrônico bem mais. Em 97, eu era residente do Cabral quando criamos uma noite de house às quintas, porque a ideia era que a cada dia fosse para um gênero. Mas uma vez eu cheguei até a sofrer ameaças porque tinha um cara bebaço que queria que eu tocasse Frank Sinatra. Nessa época, escutar música eletrônica era coisa de gueto, de baladas gays.
E agora, como é?
São Paulo cresceu muito de dez anos para cá e virou realmente cosmopolita. Muitas pessoas com dinheiro vieram para cá para gastar mesmo, em compras e saindo à noite. Eu acho a noite paulistana melhor que a de Nova York, e olha que eu já toquei lá. E quanto mais cosmopolita você fica, mais exigente você é. E a noite de São Paulo tem essa exigência de qualidade. O problema, eu acho, é que ainda temos que achar nossa vocação. Champanhe com foguinho nessas baladas, Pink, Mokai, etc. não é nossa vocação, ainda mais num país como o nosso, que tem grande parte da população pobre.
Você se liga em política?
Não, só voto porque é obrigatório.
Vi uma apresentação sua numa festa no meio do ano, que você tocou ao lado de um cara que fazia os sons mais diferentes possíveis, sons de celular, máquina de cortar cabelo raspando em superfícies metálicas...
Aquele cara entende muito de música, é um percussionista, toca com muita coisa exótica. Hoje em dia eu frequento o estúdio do Buga. Na verdade ele é o piloto do estúdio, é músico mesmo, treinado em instrumentos. Mas tudo pode ser uma inspiração: uma música que eu escuto na rádio, uma história que me contam... Um dia, acordei com duas músicas na cabeça, a da Pantera Cor de Rosa e a e do filme O Iluminado. Comprei as duas no iTunes e liguei para o Buga. As músicas viraram dois remixes bem bacanas.
Além de DJ, você também promove algumas festas. Como é esse trabalho?
Tenho alguns sócios, o Buga, o pessoal da loja 284, o Bruno Praia. Criamos um selo, o
284@night, dessa festa que você mencionou do cara das percussões exóticas. Também criamos o selo da
Cleriquot, com outros sócios. Eu era sócio da primeira geração da
Disco e da Chaos também (nota da redação: .
Que conselho você dá para quem está começando?
Tem que ter muita investigação abaixo do que está na superfície. Hoje é mais fácil, com a internet e essa onda de festivais e DJs gringos vindo para cá o tempo todo. Tem que procurar e escutar de tudo. E também tem que ter persistência e dedicação. Não adianta sair pensando que ser DJ é só glamour, que DJ ganha dinheiro fácil porque não é assim. Hoje o problema é que todo mundo é DJ, você vê direto celebridade atacando de DJ. As mudanças tecnológicas facilitam nosso trabalho, mas acabam banalizando também. E claro, tenho meu lema: "não faça com os outros o que você não quer que façam com você".