O cantor, compositor e violonista mineiro
Pedro Morais aprendeu tudo sozinho. Aos sete anos, dedilhava o bandolim com intimidade, mas se sentia intimidado na hora de soltar a voz. "Meu negócio sempre foi tocar... Mas meu pai insistiu tanto que comecei a me soltar e a pegar gosto pela coisa". Sábio pai que, em 1999, viu o filhão ser eleito melhor intérprete do Festur (Festival de Turmalina), com uma música autoral. Depois disso, ele participou de outros festivais da região e dividiu o palco com gente do calibre de Moska, Curumin, Max de Castro, Otto, Toninho Horta, Vander Lee, Jorge Vercilo, Beto Guedes, Ângela RoRô, Marina Machado, Ná Ozzeti e Tiê.
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Nascido em Belo Horizonte e criado na pequena Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, Pedro se diz "um cara simples" e apaixonado pela música. Já quis ser publicitário, adora fotografia, é fã de Caetano e Novos Baianos e transparece em seu trabalho um misto de intensidade e melancolia. Até o fim de setembro, ele lança seu segundo disco (
Sob o Sol) e promete shows de divulgação em Belo Horizonte e São Paulo.
Apesar de não simpatizar com rótulos, Pedro Morais já é apresentado por aí como integrante dessa "nova geração" da MPB. Mas, enquanto parte da turma se ocupa em redescobrir a roda, Pedro simplesmente faz seu som. "Não tenho a pretensão de ser um Tom Zé, por exemplo, com essa coisa de trazer algo novo. Procuro surpreender de maneira simples", explica. E já é uma surpresa pra quem acha que música mineira é Clube da Esquina, Pato Fu, Skank e Jota Quest. Aliás, não só ele como Aline Calixto, Renegado, Berimbrown, Marina Machado e outros tantos dessa cena que se não é tão forte como a de São Paulo, caminha para isso, alheia a limites territoriais ou musicais. Quer saber por quê? Acesse o
Myspace dele, assista ao vídeo da música
De Cada Lado, do disco de estreia (
Pedro Morais, 2006) e leia, a seguir, a entrevista que Pedro Morais concedeu ao
!ObaOba.
Como você começou na música?
Foi uma coisa tão maluca! Comecei a tocar com sete anos e oficializei minha carreira aos 15. É estranho porque aconteceu muito naturalmente, nunca sentei e resolvi que queria ser músico, simplesmente aconteceu. Minha família é muito musical, meu pai toca violão, minha mãe gosta de cantar, mas ninguém faz isso profissionalmente nem levou adiante... Nem sei como fiquei assim (risos)! Quando era criança e queria aprender a tocar, tinha sete anos e minha mão não dava no violão. Aí, meu pai me deu um bandolim e eu comecei a tocar chorinho... Era solista; adorava solar. Cantar sempre foi uma coisa inimaginável! Já cheguei a cantar entre amigos e eles pedirem pelo amor de deus para eu ficar calado (risos)! Era um sem talento, morria de vergonha. Cantava desafinado, pra dentro, de cabeça abaixa, mas meu pai insistiu tanto que comecei a me soltar e a pegar gosto pela coisa.
E como você decidiu se profissionalizar?
Quando comecei a tocar nos bares, ainda estava no segundo grau. Mas, como cresci muito rápido, dava para passar por mais velho. Mas nunca tive problemas. Não bebia e não bebo até hoje, sou bem careta nesse sentido! Essa experiência foi muito importante para eu poder decidir o que fazer da vida. Isso foi possível porque amadureci mais cedo... Acho que é uma coisa doida que vem da noite mesmo, essa coisa de crescer antes do tempo.
Quais são suas influências?
Já ouvi de tudo! Mas me sinto meio limitado porque escuto muuuita música brasileira. Novos Baianos e Caetano Veloso me serviram de escola. Outro fator que me deixou assim, acredito que seja o chorinho... Eu tocava bandolim nas rodas ainda criança.
Você sempre compôs suas músicas?
Aos 16 anos, fiz minha primeira composição. Terrível (risos)! Mas faz parte do amadurecimento... A minha sorte é que não gravei nada nessa época. Isso é um problema de muitos artistas em começo de carreira, na verdade... Nessa pressa de gravar, os caras acabam gravando um monte de porcaria porque ainda são imaturos. Hoje, faço minha música e se ela não parecer tosca para mim, não tenho vergonha de ninguém.
Você já pensou em seguir outra profissão fora a música?
Já pensei sim! Quando eu estava naquela fase de crise no colegial, pensei em fazer publicidade que era uma área que me interessava bastante, mas provavelmente eu iria montar um estúdio e fazer jingles (risos)! Quis fazer letras também. Mas em função da música: para ter bagagem literária mesmo. Acho que deveria ser uma regra as pessoas fazerem o que dá prazer e faz feliz. Escolhi a música por isso. Assim com escolheria a fotografia, uma coisa que eu adoro! Sou leigo, fotografo com a minha câmera, mas me divirto fotografando pessoas, coisas, flores...
Mas no final das contas você acabou desencanando do vestibular?
Acabei deixando o vestibular de lado e só agora estou fazendo faculdade de música. Mas, às vezes, acho que (a faculdade) é um espaço antimusical. Não é um lugar de arte; é um espaço de academia, não tem muita maleabilidade. Como se eu deixasse a minha vivência de fora quando estou lá.
Hoje temos uma cena grande de novos músicos brasileiros. Aqui em SP está bem forte, rola em Minas Gerais também?
Rola, sim! Aqui está acontecendo muito isso, de se falar de uma nova geração, tanto é que normalmente sou apresentado assim. Entendo que a sociedade precise desses signos mas, para mim, é bobagem. A gente vive num momento de quebra de paradigmas: as gravadoras já não tem tanta força, a internet cada vez impulsiona mais esses novos artistas. Antes as pessoas precisavam de uma indicação. Hoje, isso não existe mais - vai quem quer, não precisa mais ser "o escolhido". Aqui em Minas está cheio de artistas novos e muito bons também, mas ainda fica aquela coisa de "novos músicos mineiros". Se me identificam como nova geração, tudo bem, mas não sou um cara regionalista.
Essa geração tem um ímpeto imenso de inventar coisa nova. Você também sente uma necessidade de ser experimental?
Sou um cara simples! Não tenho a pretensão de ser um Tom Zé, por exemplo, com essa coisa de trazer algo novo. Procuro surpreender de maneira simples. Minhas músicas são muito introspectivas, filosóficas, melancólicas... Não chego nem a ser romântico. Elas refletem um pouco desse lado da minha personalidade...
Você considera sua personalidade melancólica então?
Considero! Você não acha? (risos)
O que você sente que falta na cena mineira?
Acho que em Minas está faltando um pouco mais de exposição! Tem a rádio Inconfidência e a Rede Minas que divulgam os artistas mineiros, mas acho que poderíamos ter um link maior com outros veículos públicos, como a TV Cultura, por exemplo. Sinto que não temos tanta aceitação ainda; somos salvos pela internet, que é o meio que permite que eu marque um show em São Paulo e tenha público.
O novo disco também é independente?
Continuo independente. A Tratore distribui, tem um selo menor que ela, o +Brasil, e ainda trabalho com ele. Até tenho vontade de mostrar meu disco para alguma gravadora, já rolou essa conversa, mas só topo se for bom para o trabalho. Se for atropelar a produção artística, to fora! Ser independente pode ser ainda o melhor caminho.
O que dá para adiantar desse segundo trabalho?
São 11 músicas autorais. Primeiro o disco ia se chamar
Gasolina, mas mudamos para
Sob o Sol que é o nome de outra música. Na verdade mudamos por causa da arte do encarte e do conceito...gasolina ia limitar muito. Tem minha parceria fixa que é o Magno Mello, também tem parceria com o Kadu Vianna e o Flávio Henrique (na música Sob o Sol, título do álbum).
Como acredito que as coisas passam por um ciclo, estou numa fase mais rock. Ando com vontade de por distorção em tudo e isso não aconteceu por pouco nesse CD. Fiz um álbum completamente diferente do primeiro, formei uma nova sonoridade, mas mantive essa coisa da MPB, mas também me permiti fazer uma coisa mais pop. Antes eu achava que ser pop era ser menos, mas hoje desencanei disso. Na verdade, eu queria viver em um lugar sem rótulos, fazer um disco de rock, um de MPB e um só de cordas (risos)! Meu terceiro trabalho corre o risco de ser violão e voz apenas...
O que você anda ouvindo ultimamente?
Jamie Cullum, Mallu Magalhães, que apesar de tudo manda muito bem. Clube da Esquina 1, preciso dele para viver, assim como toda a obra do Caetano e dos Novos Baianos, preciso sempre ouvir de novo. O novo disco da Adriana Calcanhoto também, Mônica Salmaso, Cake, Little Joy - para mim, o Rodrigo Amarante é um dos melhores músicos dos últimos tempos, tenho muita identificação com ele. Descobri recentemente o Rômulo Froés, que é muito bom. O novo CD da Céu está incrível também e, depois, vou pro jazz...escuto Chet Baker, Miles Davis, Ray Charles...
Quais são os próximos passos da carreira?
Quero lançar o disco e rodar com ele por aí. Mandar ele para França é um dos planos, mas já estou a fim de fazer outro disco... Estou com muita música e muita vontade de fazer trabalhos diferentes.