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Nova Geração quer experimentar a música sem limites

Dani Barra juntou 12 artistas das mais variadas áreas e resolveu fazer um som. E não é que conseguiu?

São Paulo, 27 de julho de 2009
Por: Mariana Morais

Crédito: Henrique Garcia
Se 2008 foi um bom ano para a "safra de novos músicos brasileiros", 2009 está melhor ainda. Além do "boom" de cantoras e compositores do ano passado, vemos nascer agora um movimento musical da nova geração. Pelo menos, é no que acredita a galera que está na ponta desse iceberg. Entre eles, o coletivo Geração SP.

Formado pelos 12 artistas - entre cantores, compositores, produtores, atores, diretores de teatro e instrumentistas - Luisa Maita, Tulipa Ruiz, Dani Barra, MC Thg, Gil Duarte, Luciana Paes, Roberta Estrela D´Alva, Bárbara Eugênia, Cláudia D´Orei, Caio Bosco, Berlam Belozo e Sub, o projeto reuniu o gosto pela música e a vontade de experimentar em CD.

A ideia da Geração SP foi fazer música sem se preocupar em seguir um padrão ou prender-se a um estilo. Em 2007, chegaram a reunir 36 artistas para compor o grupo e concorrer ao "Prêmio Estímulo de Música", da Secretaria da Cultura do Estado. Porém, uma das normas do concurso, era que nenhum deles tivesse lançado disco, o que barrou 24 deles. Vencido o prêmio, a Geração gravou um disco homônimo que está em fase de masterização, com lançamento previsto para outubro deste ano.

Dessa nova onda de músicos, já saíram Mariana Aydar, Curumin, Céu, Ana Cañas, Thiago Pethit, Tiê, Dani Black, Rômulo Froés, Marcelo Jeneci, Bruna Caram, Verônica Ferriani e mais um monte de gente talentosa. Mas além do talento, o Brasil está é mesmo cheio de artistas jovens, com vontade de tocar, criar e pegar a boa música de todos gêneros, épocas e lugares. Tímida no resto do Brasil, a cena já é forte em São Paulo. Mas a turma acredita que é uma questão de tempo para se espalhar pelo país.

Para detectar ecos de um novo movimento artístico, fomos atrás de Dani Barra, produtor cultural, cantor, compositor, DJ e idealizador da Geração SP. Ele nos contou como surgiu a ideia, como foi e está sendo esse processo e como é trabalhar com tanta gente num disco só.
Enquanto você lê a entrevista, não deixe de acessar o site da Geração SP e ouvir o pré-mix do CD.

!ObaOba: O que é a Geração SP?
Dani Barra: No começo eu não tinha ideia de como ia ser. Primeiro, pensei em juntar todo mundo e ver no que ia dar. Acho que o Geração, antes de tudo, é uma plataforma de encontro: uma galera que tem mais ou menos a mesma idade, gosta de fazer música e está afim de experimentar... Daí, alguma coisa ia sair. Aconteceu da forma mais genuína e verdadeira.

!ObaOba: Como é o processo de criação com tanta gente?
É surreal (risos)! É muito complicado, é muito trabalho! Apesar de ser difícil juntar uma galera que pensa diferente - um quer por uma coisa e o outro quer tirar -, é muito bacana poder agregar... Eu gosto de juntar. Apesar das dificuldades, estou gostando dessa experiência. É um desafio muito gostoso.

!ObaOba: Como você escolheu a galera pra participar do projeto?
Eu fui juntando e descobrindo. Teve um momento no meio do disco que umas pessoas saíram e tive que colocar outras no lugar. Uma das tendências da cidade de São Paulo é a coisa da arte hibrida, quem interpreta também canta e quem canta também dança, e foi isso que eu quis colocar no disco, busquei pessoas assim pra colocar na Geração. A Luciana Paes é atriz, a Estrela também e trabalha com hip hop misturado com teatro, é hibrido por natureza. O Berlam é um personagem: ele é ator e diretor (de teatro) também. É uma galera que gosta de arte, gosta de experimentações.

!ObaOba: Todas as canções do disco são inéditas?
Eu queria mesmo que fosse isso, que as pessoas compusessem pro disco. Em alguns momentos, existia uma melodia pronta, uma letra ou um arranjo pronto. O caso mais extremo foi da música "Cigana" (do Caio Bosco) que já estava pronta e gravada. Fizemos umas adaptações, com um novo batera e mudamos a concepção da música. As outras, a gente pensou junto. As músicas tiveram produtores diferentes, todas foram feitas de maneiras diferentes, nada foi 100% estabelecido; foi tudo em parceria. O espírito é esse!

!ObaOba: Como vocês pretendem entrar no mercado musical com esse trabalho?
Fazendo shows e alimentando essa plataforma de encontros para criarmos novas músicas e novas parcerias. E deixando uma porta aberta para novos formatos que possam surgir.

!ObaOba: Vocês são bem ligados a novas tecnologias, como MySpace, Twitter etc.? Como vocês usam essas ferramentas?
Divulgação total! Eu adoro o Twitter, por exemplo. A própria Cláudia D´Orei vazou o disco dela na internet, eu coloquei o disco do Geração em pré-mix para as pessoas ouvirem e não vejo isso de uma maneira negativa. A intenção é sempre mostrar para as pessoas o trabalho que a gente está fazendo. Sem restrições.

!ObaOba: Você sente que há demanda por esse tipo de trabalho?
Com certeza! Aquela história de que estamos sempre bebendo daquilo que foi feito 20 anos antes. É o que está acontecendo agora. Existe uma galera que precisa do novo; é só uma questão de conhecer.

!ObaOba: Então, você vê que as pessoas têm uma sede de novidade...
Não digo uma sede, vejo poucas pessoas com essa sede. Quem tem essa sede, por exemplo, sou eu, a Bárbara Eugênia, a Cláudia D´Orei, o Thiago Pethit.

!ObaOba: Você acha que dá para separar uma "nova geração" de uma "nova MPB"?
Na década de 90, a nova MPB era Lenine, Chico César, Zeca Baleiro... Agora tem essa nova MPB - Dani Black, o cara é muito bom, assim como a Giana Viscardi. É super bem feito, tem um super talento. Agora, essa nossa turma que tem muito mais um lado Tropicália, de buscar as coisas lá de fora. Tem dois fenômenos que acho que estão acontecendo na música: esse momento da arte que a gente vive que eu chamo de um "momento brechó" (a volta do folk, do samba e a coisa de ir buscar lá no armário empoeirado e, não necessariamente reler, mas beber daquilo) e outra que é não se influenciar pelas coisas do Brasil. A Tiê, o Pethit são super exterior. Acabam sendo brasileiros, lógico, mas acho que eles beberam muito lá de fora. Eu sinto muito isso, as coisas de fora me inspiram muito mais.

!ObaOba: Você já achou seu público?
Existe um público enorme que gosta desse tipo de música, mas ainda não descobriu. Quem vai gostar com certeza é a galera que faz arte (músicos, atores, bailarinos), mas a maioria ainda não sabe (da existência do movimento). O problema é que as pessoas são muito preconceituosas no Brasil, sempre tem uma critica e um comentário negativo. Até o novo chegar no ouvido do povo, demora.O público ainda está para descobrir essa nova música.

!ObaOba: Como é fazer música em plena derrocada da indústria fonográfica?
O mercado musical está mais aberto às mudanças depois que a internet tirou o poder das mãos dos modelos antigos de negócio. Hoje em dia, a imprevisibilidade é muito grande e as certezas duram pouco. Eu acho essa situação formidável porque nos obriga a experimentar e, a experimentação para mim, é essencial para a criação de novas formas, métodos e linguagens.

!ObaOba: Existe ainda um antagonismo entre tradicional e alternativo?
A tradição é importante. A diferença que existe é de uma galera que faz uma MPB e uma galera que quer experimentar. Aí que a gente separa uma Diana Krall de uma Camille, a Verônica Ferriani da Tiê, por exemplo. Não que um seja pior ou melhor do que outro, são coisas diferentes. A gente só faz essas separações para organizar de uma maneira generalizada.

!ObaOba: Como foi o processo de gravação do CD?
A ideia inicial era propor o encontro entre os artistas para que de modo natural as afinidades musicais aparecessem. Isso requer tempo, e esse foi um dos principais agravantes quanto ao nosso prazo de entrega do disco. Houve também sugestões minhas e, aos poucos, as parcerias foram aparecendo e as músicas ganharam arranjos. Como hoje em dia a maioria dos artistas possui um estúdio em casa, nós formamos pequenos núcleos em torno dos diferentes artistas e produtores para a pré-produção das faixas. Todas elas, com uma ou outra exceção, foram gravadas e mixadas no Reset Studio, por Gui Simonsen, produtor com experiência em música eletrônica, convidado para dar uma visão diferente às faixas. Como foi minha primeira experiência do gênero, muitos tropeços aconteceram e isso fez com que o tempo e as agendas dificultassem as coisas. Tivemos poucos meses para eleborar as músicas e gravá-las dentro do prazo exigido pelo edital do prêmio que recebemos ("Prêmio Estímulo de Música 2007"). Mas diante de todas as circunstâncias desfavoráveis, o resultado final ficou mais do que satisfatório para nós.

!ObaOba: Como resolver ideias conflitantes com tanta gente?
Juntar muita gente não é uma tarefa fácil, de fato. O Geração juntou pernambucanos, cearences, cariocas, gente do teatro e de diferentes idades. Já me diseeram que depois dessa experiência ou eu nunca mais penso em fazer isso de novo ou eu tenho certeza de que é isso que quero fazer. Por um impulso inconsciente, eu fiquei com a opção dois. Jogo de cintura é a solução mais usada pra lidar com tanto artista junto. Não é todo mundo que consegue ser eclético, aberto, e estar disposto a entender o outro; é um exercício de ouvir ao invés de falar. No final das contas, o papel de quem organiza um encontro como esse é o de um diplomata, guardadas as devidas porpoções.

!ObaOba: Existe a intenção de formatar isso para o mercado?
A pretensão é de fazer shows! Nem sei como seria trabalhar com uma gravadora, mas o que a gente quer agora mesmo é fazer bastante show. A Geração é muito aberta conceitualmente, tem gente que acha que é negativa essa característica, mas o que temos para hoje é isso e o meu grande argumento é essa questão da música nova. Mas, ainda quero descobrir o que dá pra fazer com esse trabalho; o primeiro passo foi o disco e o próximo são os shows.

!ObaOba: Você vê similaridade com o movimento da Vanguarda Paulistana?
Como um movimento ainda não consigo ver, mas como uma movimentação, uma cena, sim. Mesmo assim, não consigo definir muito bem. Nesse meio só consigo pensar em agir e falar para as pessoas o que está acontecendo. Quando comecei a trabalhar com a Mariana Aydar em 2007, era bem isso que acontecia, apenas víamos a necessidade de passar a mensagem adiante.

!ObaOba: O projeto busca reinventar a música brasileira?
Não. Não existe essa preocupação, foi um processo natural. Acho que esse trabalho é super aberto. Estamos em 12 pessoas, não vou dizer que todos são iguais, mas digamos que 10 são bem parecidos ou quase iguais. Foi um processo natural - a maioria dessas pessoas se inspira muito mais na música universal do que na brasileira, o que não significa que não tenha nenhuma brasilidade, até porque esses artistas são brasileiros e não negam a cultura. Estamos apenas fazendo música e experimentando.

!ObaOba: O que você anda ouvindo ultimamente?
Eu sou um caso à parte porque eu vivo pra ouvir (risos)! Eu procuro a música que tenha o frescor, algo original, isso tudo que a gente estava falando até agora. E encontro. Ando ouvindo Camille, Cocorosie, Radiohead, Feist, Fionna Apple - que é um monstro no melhor dos sentidos - Emilie Simon, Céu, Rômulo Froés, 3 na Massa, que é o supra sumo hoje no Brasil. É importante colocar também que Pernambuco é o grande polo criativo do país... Academia da Berlinda é genial, por exemplo.

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