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Besouro dá ares épicos à estética da Capoeira

Filme de João Daniel Tikhomiroff mistura ação, mitologia e cultura de matriz africana

São Paulo, 21 de outubro de 2009
Por: Gabriel Rocha Gaspar

Crédito: Paulo Mussoi/Divulgação
Na semana passada, pintou no meu blog um release proferido pela equipe de divulgação de Besouro, filme do diretor de publicidade João Daniel Tikhomiroff, que mistura ação, mitologia e cultura de matriz africana em um épico de capoeira, com direito a coreógrafo chinês - o mesmo de Matrix e O tigre e o dragão, diga-se de passagem" - e tudo.

Por praxe, eu teria excluído o "spam" e deixado o assunto cair no ostracismo. Mas, dias antes de recebê-lo, fui ao cinema ver Bastardos Inglórios, do Tarantino - aliás, recomendo geral: se existe bom uso pro revisionismo histórico, é esse - e fui sugado pelo pôster do filme. Nele, um negro vestido em calças largas voa sobre um cânion com pinta de Chapada Diamantina. Depois da entrada do negro como força motora do cinema brasileiro, em "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, faltava dar este passo além e explorar, com a força imagética dessa nossa nova filmografia, a plasticidade da cultura negra. Faltava dar cara aos orixás e tela à estética da capoeira.

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Não vi Besouro, já adianto. Mas acho que o esforço em retratar esse nosso legado é sempre bacana. A capoeira foi proibida durante boa parte de nossa história pós-abolição por ser uma luta de resistência negra contra a qual o sistema opressivo eurocêntrico não tinha armas. Não que não se pudesse matar a tiro um capoeirista - embora lendas dêem conta de uns ou outros que, como Besouro, tinham o tal "corpo fechado". Mas não havia bala que destruísse o que ele representava. Ele não era apenas um negro forte; era um negro forte e consciente de sua força física e cultural. Um lutador, um artista, um cantor, uma força religiosa. Ele era a personificação de um legado do qual este povo oprimido poderia se orgulhar, a ponte entre a vida no pós-escravidão - que tinha mais de escravidão do que de pós - e a história africana pregressa, usurpada pelo tráfico negreiro. Ele era quem inviabilizava que a abolição caísse na letargia e fosse relegada a uma assinatura no papel. Ele era quem forçava a entrada do negro na sociedade brasileira e cobrava pelos anos de trabalho gratuito. Óbvio, ele foi proibido.

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Hoje, a capoeira é patrimônio do Brasil. É praticada em escolas particulares e tratada mais como dança do que como luta e movimento afrorresistente. Mas é importante que ostentemos a raiz dessa cultura. Até para que nossa sociedade não ouse repetir sobre outras culturas negras o ataque que promoveu à capoeira. Sim, estou falando especificamente - mais uma vez - do candomblé, religião de matriz africana que tem sido acossada pelo aumento das igrejas evangélicas e que corre risco de extinção caso se concretizem as projeções do crescimento geométrico do protestantismo no Brasil dos próximos anos. Exu, um dos orixás menos compreendidos, é um dos protagonistas do filme e, pelo trailer, não parece ser retratado como um demônio, mas como o que de fato é: um orixá.

Clique aqui para ver o trailer cinematográfico de Besouro.

Bom, reitero que não vi o filme. Por isso, comento apenas os arredores da história e as parcas impressões que tiro do trailer. Depois de assistir, prometo que volto a trocar ideia com os leitores.

Texto originalmente publicado no blog Afroências

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