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Soninha Francine, vereadora de São Paulo pelo PT, ex VJ da MTV, comentarista da ESPN. Poucas pessoas representam tão bem os jovens como ela. E é por isso que a convidamos para estrear sua coluna no !ObaOba.
Quinzenalmente você vai poder conferir as novidades aqui, na Coluna da Soninha. Espere por muito comportamento, atitude, cidadania e atualidades! |
Quase eu fui
Sábado passado, eu não morri por um segundo. Estava saindo de Vespa da favela de Heliópolis -- "a maior de São Paulo", como costumam dizer, com seus 100 mil habitantes -- de Vespa, depois de um Seminário de Juventude (muito legal, na quadra da União de Moradores). Vinha por uma avenida quase tão rápido quanto possível (eu poderia acelerar um pouco mais, se quisesse, mas não quis), quando um sujeito saiu com seu carro de uma travessa à minha frente A TODA VELOCIDADE, sem olhar, sem parar. Cruzou meu caminho como uma bala perdida.
Se eu estivesse um segundo à frente, teria me atingido em cheio e me atirado longe ou passado por cima de mim. Eu poderia saber, agora, a sensação de ser partida ao meio, de perder os movimentos do corpo do pescoço para baixo, ou de ter consciência e não ter corpo...
Na hora, o susto passou rápido, mas fiquei matutando por que não fui atingida. 500 metros antes, diminuí para dar passagem a um carro que esperava para atravessar a avenida. Se não tivesse diminuído... Aquele cara, que absurdo, salvou a minha vida, só porque precisava atravessar na minha frente (e eu deixei).
No dia seguinte, voltei a pensar no assunto, e pirei. Se tivesse morrido, o dia de sol teria sido deprimente para minha família. O jogo do Brasil, com uma goleada que eu adoraria ver, teria sido doloroso para meus amigos. Voltar para casa no fim do dia seria estranho para meu marido. E eu, de algum lugar que não sei, ficaria desesperada para dizer: "Continuem as coisas como antes!". Sempre disse para minhas filhas: "Não fiquem tristes quando eu morrer". Elas não gostam dessa conversa, mas eu não suportaria causar-lhes sofrimento só por não estar mais por perto.
Que papo mórbido, não? Mas... É a vida. Não dá pra escapar do chavão, porque esse é o final de todos os filmes reais: o bandido morre, e o mocinho também. Coisa mais banal... Não morri em 3 de setembro de 2005, mas podia ter sido. Meu marido tem uma tatuagem no peito: 1970-20??. Que grande mistério é essa data que separa o período em que existimos neste mundo do período em que o mundo continua existindo sem nós. E o que resta é cuidar da vida, dirigir com cuidado, curtir o sol e as goleadas, beijar o marido e as filhas, fazer o melhor possível com cada minuto. A gente não pensa isso só quando quase morre, não... Pensa quando volta de férias ("vou aproveitar melhor o tempo"!), quando morre alguém querido. E aos poucos começa a fazer tudo errado outra vez. Dirige sem cuidado, briga por bobagem, vive esculachadamente, sem pensar no propósito, no sentido, no prazer, no motivo de viver.
Então... pense. Descubra seu propósito, deixe que a sua razão de viver permeie todas as coisas que você faz (de arrumar a cama a redigir o Trabalho de Conclusão de Curso), viva no capricho. Sua estadia só está garantida até este instante e, no máximo, o seguinte. Ops, esse já passou! Capriche no próximo, e assim por diante até o famoso dia de bater as botas, comer capim pela raiz, abotoar o paletó, dizer adeus a todas as pessoas queridas e se deixar dissolver no todo ou no nada, na plenitude ou no vazio, no ser-e-não-ser. Um dia eu garanto que você chega lá, a pé, de carro ou de Vespa.
Soninha Francine escreve para essa coluna quinzenalmente
Site Oficial: http://www.soninha.com.br
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