 |
Soninha Francine, vereadora de São Paulo pelo PT, ex VJ da MTV, comentarista da ESPN. Poucas pessoas representam tão bem os jovens como ela. E é por isso que a convidamos para estrear sua coluna no !ObaOba.
Quinzenalmente você vai poder conferir as novidades aqui, na Coluna da Soninha. Espere por muito comportamento, atitude, cidadania e atualidades! |
O ônibus, a Vespa e um caderninho de anotações
Nunca me esqueço de uma frase do João Gordo: "Depois que comecei a andar de táxi, não consigo mais fazer letra de música".
(Não parece muito bombástica, né? Tantas frases do João Gordo para citar, fui lembrar logo dessa...). (Sim, eu adoro o João como frasista!)
Enfim, voltando ao princípio: certa vez, muito tempo atrás, logo depois de começar a trabalhar na MTV, João comentou que agora tinha dinheiro para pegar táxi, e também não tinha mais condições de pegar ônibus. Mas se ele ganhava em tempo e conforto, perdia em inspiração. De ônibus, João tinha mil idéias para suas letras - a maioria, como é típico do punk, de protesto. De táxi, não tinha mais.
Sei bem como é isso. Fiz faculdade de cinema na USP, e morava em Santana. É longe. Eu levava duas horas e meia ou mais para chegar lá de condução. Nesse tempo, eu dormia bastante, é verdade - mas no intervalo entre um "desmaio" e outro, tinha um milhão de idéias. Andava sempre com um caderninho na bolsa para fazer anotações de cenas, personagens e pedaços de conversa que um dia poderiam ser aproveitados no roteiro de um filme.
Andar a pé também tem esse efeito. Às vezes parece até que o movimento das pernas acelera o pensamento. Talvez haja alguma explicação científica para isso - "caminhar acelera a circulação, e assim, o afluxo de sangue no cérebro", vai saber. Mas é evidente que a própria abundância de estímulos - sonoros, olfativos, táteis e, claro, visuais - favorece a proliferação de idéias.
Hoje em dia, quase não ando de ônibus. Às vezes pego o "Machadão" na esquina de casa para ir até a Câmara. Adoro quando é o ônibus elétrico, naquele modelão "trólebus" - espaçoso, silencioso, confortável. Mas ultimamente a linha está sendo feita com ônibus comum - apertado, barulhento, chacoalhante e fedorento. Não tem graça nenhuma.
Também ando pouco a pé - bem menos do que eu gostaria. Mas tenho um meio termo legal: meu principal veículo é uma Vespa. Um caco velho (86) que volta e meia me deixa na mão (o carburador sofre demais com gasolina ruim), mas em geral é o que salva a minha pele. Sem ela, eu não faria metade do que faço. Mas não gosto dela só pela utilidade, não -- é pelo prazer também, e pelas experiências que ela proporciona.
Pode parecer conversa de doida, de hippie anacrônica (vivem me chamando disso), mas é bom sentir na pele o frio e o calor da cidade. De carro, você vive em um mundo à parte. De moto, você está no sol, no vento, na chuva. Juro que a gente se sente mais humano, ou lembra mais facilmente o que é ser humano. O que é usar as próprias pernas para sustentar o seu veículo (é claro que moto exige muito mais do corpo do que um automóvel -- experimente sair de moto quando está exausto pra ver...).
No carro, perdemos a noção da velocidade, do peso, da força. E do outro: são os veículos que se relacionam, não as pessoas. "Aquele Audi ali é uma besta"; "Olha aquele Corsa fazendo bobagem". De moto, ainda acontece uma coisa maluca que é o olho no olho: as pessoas vêem umas às outras, acenam, se cumprimentam.
Não estou romanceando a vida sobre duas rodas, não; claro que motoqueiros também são ingredientes do trânsito insano. Mas juro que eu acredito que, se mais gente andasse de moto, seria melhor. E, como eu disse, andar de Vespa me dá tantas idéias que eu sinto falta do meu caderninho -- ele tá lá na bolsa, como sempre, mas não dá para pegar... Quando chego ao meu destino (que frase poética!), corro para anotar.
De hoje em diante, uma vez por semana, eu vou estar aqui falando de coisas que eu vejo por aí: de cima da Vespa, na Câmara, nos jornais, na internet... Faço desta página uma complementação do meu caderninho de anotações, compartilhando idéias, dúvidas, reflexões, sentimentos. Os mil roteiros de cinema que eu queria fazer não aconteceram, mas falar com tanta gente pela internet também é muito legal. Vamos nessa.
|
|
|
|