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Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência química. Mas seu olhar atento volta-se para as club drugs, que tem como ícone o êxtase.
Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e atualmente dedica-se ao atendimento de dependentes químicos no CAPS álcool e drogas de São Mateus e no seu consultório particular. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.
Longe da repressão ou da apologia, só quer trocar idéias, escutar, refletir e esclarecer mais sobre as drogas.
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Baladas que a gente nunca esquece...
Certa vez fui numa balada eletrônica que meu amigo, com um vasto currículo de raves e festivais, havia me convidado, e eu aceitei de prontidão. Chegamos naquela casa noturna de São Paulo, entramos, miramos direto na pista e fomos. Ele já estava muito mais empolgado por estar lá e logo a perna começou a mexer às batidas do psytrance. Juro, dançar foi involuntário para ele.
Olhei ao redor. As pessoas estavam felizes, contentes, pulantes e em harmonia. O ambiente sonoro exalava bem estar, felicidade, paz e risadas.
Logo percebi nesta multidão aqueles que usaram ecstasy. E sei muito bem que não são todos que freqüentam raves e/ou baladas eletrônicas que usam ecstasy. Mas, aquilo me chamou a atenção e me obrigou a refletir sobre o assunto. Essa balada foi inesquecível.
No final de 2004, depois de um ano lotado de trabalhos e projetos, tive a oportunidade de ir a uma rave. Eu e minha curiosidade profissional me levaram a procurar a tenda da enfermaria para ver os famosos camaradas fritos, os quais alguns amam ser e estar perto, e outros odeiam por atrapalhar e causar às raves. Ao chegar, assustei-me bastante. Mesmo.
Eu notei que tinha uma garota desacordada e um amigo desesperado ao lado, pedia algum sinal de vida. E ela pálida e mole encostou-se na base da tenda, no chão; todas as macas estavam ocupadas. Olhei a minha direita e vi um moço recolhido, sentado no chão, abraçava as pernas e estava muito, muito, assustado e angustiado; suas pupilas e seu olhar denunciavam.
Aproveitei um segundo de calmaria na tenda e fui conversar com o único profissional responsável pelos cuidados a estas pessoas. Não sei dizer se era médico, enfermeiro, auxiliar de enfermeiro e muito menos se tinha alguma especialidade na área de dependência química e/ou emergências psiquiátricas. Pergunto sobre os remédios, sua conduta e o que mais aparecia na barraca da enfermaria. Ele responde:
- Bala, né?! Daí, eu só tenho uns calmantes e água com sal... Pêra aí, to indo...
Ele virou-se e foi cuidar de alguém que o chamava. Muito atencioso e prestativo, mas, poderia ter sido mais bem treinado e equipado, ao meu ver. A menina continuava desacordada e o rapaz assustado. Essa balada foi inesquecível.
O ecstasy (MDMA) é uma metanfetamina, ou seja, um estimulante que acelera o organismo e suas funções. Portanto, o coração bate mais rápido, a temperatura aumenta, as pupilas dilatam, sente-se sede, fala-se mais e mais rápido, as mandíbulas ficam batendo, os lábios tremem sem parar e aumenta a libido, ou seja, vontade de beijar, transar e por aí vai...
Então estes indivíduos sentem-se felizes, nada tímidos e conversam bastante e sentem um profundo bem estar. Essa vontade de conversar, estar próximo, tocar e sentir os outros é a empatia e muitos relatam a sintonia que nascem entre as pessoas e a música.
Por outro lado, as sensações ruins mais comuns envolvem uma idéia fixa de perseguição, um medo de morrer e/ou passar muito mal (pânico). Sentem-se ansiosos ou as pessoas ouvem e/ou vêem coisas que não existem ou falam coisas sem sentido. Normalmente, as pessoas que ficam muitos perseguidas, falam algo sem nexo, vêem coisas etc, já têm uma predisposição a se comportar assim.
No outro dia, bate uma tristeza, moleza, dores no corpo, cansaço, sono e fome. Isso porque o corpo trabalhou na balada mais acelerado que o normal e gastou todas as substâncias do cérebro que causam prazer. Então é lógico que vai ficar cansado e triste até gerar mais destas substâncias.
O maior risco do ecstasy é o aumento da temperatura. Portanto, pessoas, se possível, bebam bastante água, sem exagerar, vistam roupas confortáveis e evitem ficar em lugares calorentos e abafados, deixem o corpo ventilar e resfriar.
Caso possível, fiquem perto de pessoas próximas e se passarem mal, peçam ajuda e vão para um ambiente seguro, calmo, ventilado e se for emergência, peçam socorro imediatamente. E como o álcool e qualquer droga tiram parte do nosso juízo, camisinha na cabeça!
Mas, tudo o que escrevi é sobre UM uso de ecstasy; o que acontece se usar direto? Como fica a cabeça, o corpo e o comportamento? Frita mesmo? Uma vez frito, sempre frito? Causa dependência química?
Isso fica pra próxima. Até lá!
Marcelo Alvares
marceloalvares@terra.com.br
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