terça-feira, 24.11


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- Até droga pra cavalo esse povo usa!
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- Você conhece algum alcoólatra?
- O Carnaval da vovó Lurdes
- Projeto verão: em busca do corpo perfeito
- A tradição do LSD no Reveillon
- Se beber, não dirija
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- Mitos e verdades sobre a maconha
- Coffeeshop sem café?
- A vida de um chocólatra é barra pesada
- Após muitas baladas inesquecíveis embaladas com ecstasy...
- Baladas que a gente nunca esquece...
- Vagabundo, não. Doente!
- A "melhor hora" (?!) para um filme
- Cansa, mas é muito bom... Adorei trabalhar em uma Copa do Mundo
- Cansaço Privilegiado
- Sobre gostar ou não gostar de ler
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- Pelo direito de achar caro
- Zoada na festa
- Comentando os comentários
- Examinando a realidade - parte 1
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- Um DJ fora das pistas
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Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência química. Mas seu olhar atento volta-se para as club drugs, que tem como ícone o êxtase.

Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e atualmente dedica-se ao atendimento de dependentes químicos no CAPS álcool e drogas de São Mateus e no seu consultório particular. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.

Longe da repressão ou da apologia, só quer trocar idéias, escutar, refletir e esclarecer mais sobre as drogas.
Vagabundo, não. Doente!



Lembro meu primeiro contato com as drogas. Era muito pequeno, em meados anos 80, e fui jogar bola com meus amiguinhos na rua sem saída em frente ao prédio. Normal. Fomos em direção ao nosso "campo" e um amiguinho chama todos nós para ver alguma coisa: seringas no chão.

O vizinho grita: Não toca nisso, não! Não sei o que me apavorou mais, o grito ou as seringas. Acho que foram as seringas, já que elas continuavam lá paradas, misteriosas e assustadoras. O vizinho chega e fala: São aqueles f*** daquela m*** de faculdade que vem aqui toda noite pra usar drogas! Isso deve passar AIDS! Esses malditos vagabundos!

Eu era moleque, mas sabia que a AIDS era perigosa. Mas e as seringas? O raivoso vizinho explicou que as pessoas diluíam cocaína na água e injetavam na veia. Então, fiz minha célebre pergunta infantil: por quê? Porque são vagabundos! Sem vergonhas! Não mexe, eu vou tirar isso daí!

Anos depois, no colégio e na mesma rua, apareceram as outras drogas: álcool, maconha, ácidos, cocaínas, anfetaminas, chás alucinógenos, lança perfume etc. Eu só observava. E ouvia que os maconheiros, alcoólatras e companhia eram vagabundos, sem vergonhas, roubavam para comprar droga e não paravam porque não tinham força de vontade. Cresci no meio dessa cultura, numa escola e bairro de classe média de São Paulo. E também achava que parar de usar drogas era só força de vontade, que todo ladrão roubava para comprar e todo drogado era pilantra e que todos eram iguais nisso tudo! O tempo passou e minha mentalidade mudou. Hoje, compreendo meu passado de forma diferente. As lembranças ganharam novos significados e sentimentos. Porém, ainda ouço essas frases em todo lugar e o tempo todo.

A cocaína teve seu "boom" no início dos anos 80 no Brasil. Era pouco estudada, ou seja, seus efeitos, prejuízos, eram pouco conhecidos. Nesta época existia uma forte apologia à cocaína e até a Psiquiatria a considerava uma droga "segura". Tanto que os dependentes de cocaína surgiram nas instituições de saúde e consultórios só no início dos anos 90; daí, o "boom" de pesquisas científicas e artigos sobre esta droga.

Os indivíduos que meu vizinho tanto odiava injetavam cocaína diluída em água e sentiam os efeitos mais rapidamente e mais intensos. E, de fato, meu vizinho podia estar certo no que diz respeito a AIDS, já que o compartilhamento de seringas contribui muito para a epidemia da doença.

Nesta época, nasce a política de redução de danos. Esta se dedicava à conscientização do uso de drogas, AIDS, tratamento e, principalmente, fornecimento de insumos, ou seja, seringas e preservativos. Esta política de saúde pública é vigente e fundamental até hoje e foi responsável pela diminuição de 50% dos casos de AIDS no Brasil.

Mas e os odiados, excluídos e sem-nomes? Ou seja, os "vagabundos" e "fracos" que usam drogas e não conseguem parar? A dependência química é considerada desde 1976 pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como doença crônica e grave. Um problema de saúde pública que traz prejuízos mentais, físicos, sociais e econômicos para o indivíduo e para a sociedade. Esta doença envolve fatores ambientais, como, por exemplo, acesso fácil ao álcool e/ou drogas; falta de opções de lazer e estudo; fatores genéticos que influenciam e determinam a reação do corpo às drogas e ao álcool. Também envolve traços da personalidade, como uma simples timidez e/ou doenças psiquiátricas mais graves. Todos este fatores agem juntos e participam de forma maciça e decisiva no momento do uso de drogas. Portanto, as dificuldades em cuidar do problema com drogas vão muito além da força de vontade, já que uma pessoa doente é fraca devido à doença e não ao caráter. E o que complica muito mais é que o indivíduo, muitas vezes, demora a perceber que está doente, dependente. Ele considera que tem controle sobre o próprio uso e enquanto isso, a doença se instala e se fortalece.

A cocaína e o crack são consumidos por 0,3% da população mundial. A maior parte dos usuários concentra-se nas Américas (70%). No Brasil, cerca de 2% dos estudantes brasileiros já usaram cocaína pelo menos uma vez na vida. Entre a população das maiores cidades do estado de São Paulo, 2,1% já experimentaram uma vez. Todos seriam vagabundos e fracos? Nossa, seria muita gente, né?!

Mas o preconceito do vagabundo é muito comum na sociedade brasileira e até mundial. Aliás, devo acrescentar que a psiquiatria, bem antes de 1976, onsiderava a dependência química como desvio de caráter. Ou seja, psiquiatras viam os dependentes como pessoas com um caráter "diferente" do normal e não como doentes.

Uma das idéias desta coluna é conscientizar sobre a dependência química para que dependentes e as pessoas próximas a eles pensem sobre o tema de uma forma diferente. E saibam que esta doença pode ser prevenida, tratada e até ter seus danos reduzidos. Então, prefiro não julgar o caráter ou escolhas de ninguém. Prefiro ver estas pessoas como doentes e com direito a cuidados e uma qualidade de vida melhor. E reafirmo que xingar, excluir e chamar alguém de drogado ou bêbado, em vez do nome, não ajuda muito. Vagabundo, não. Doente!

Marcelo Alvares
marceloalvares@terra.com.br





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